Vicente Gil revela segredo inesperado

Vicente Gil abre o coração em entrevista ao Solo Number: “Sonhei ser ator para acrescentar algo ao mundo”
Aos 23 anos, já é difícil resumir o percurso de Vicente Gil . Ator portuense, português e cigano, é hoje um dos nomes jovens mais promissores da ficção nacional. Entre as gravações da série Projecto Global e do filme Amanhã Já Não Chove, Vicente senta-se com a Solo Number para uma conversa longa, intensa e profundamente honesta — sobre o ofício, as origens, a liberdade e o estado do mundo.
“Sou feliz e inspirado… mas o meu interior grita ‘fod*m-se os fascistas’ e ‘Palestina livre’”
Questionado sobre como se sente, Vicente não esconde o conflito entre esperança e lucidez:
“Sou uma pessoa feliz e inspirada, ainda que me abata com o estado do mundo. Um pouco pessimista e resiliente. Neste momento, apesar de conseguir dizer que ‘estou bem’, o meu estado interior grita ‘fod*m-se os fascistas’ e ‘Palestina LIVRE’.”
Continua depois da publicidade
Sem rodeios, assume-se politizado, atento e incapaz de ignorar o que se passa à sua volta.
“Sou ator. Dediquei seis anos da minha vida a isto.”
Ao contrário de muitos colegas, que ainda hesitam perante a definição, Vicente não tem dúvidas:
“Sou ator. Não tenho pudor nenhum em afirmá-lo, porque é a minha profissão, para a qual dediquei seis anos de formação e todos os meus esforços.”
Uma infância cheia de sonhos — mas sempre virada ao palco
Continua depois da publicidade
Quando olha para o miúdo que foi, vê alguém que sonhava em várias direções, mas sempre regressava à mesma casa: o teatro.
“Já sonhei ser padeiro, cozinheiro, desenhador… Mas o que mais me ocupou foi a arte do ator. O Vicente da infância olharia para mim com orgulho.”
Fez teatro comunitário desde cedo — e nunca imaginou que um dia seria mesmo profissão.
A exposição pública só faz sentido se for para usar a voz
Vicente sabe que a visibilidade traz vantagens, mas também responsabilidades:
“O que me interessa na exposição pública é poder ter uma voz ativa. O mundo é mais cruel do que imaginava, e as pessoas não olham além do privilégio. Figuras públicas precisam de ser denunciantes, críticas. Um pequeno gesto pode mudar o mundo de alguém.”
Maria Gil: a mãe, a atriz, a ativista, a raiz
A mãe ocupa um lugar central na vida — e no discurso — do jovem ator.
“A minha mãe chama-se Maria Gil. É portuguesa e cigana. É atriz e ativista. Ensinou-me quase tudo o que sei. É por causa dela que sou ator e apaixonado pelo teatro e pelo cinema.”
A descrição é afetuosa, admirada e profundamente respeitosa:
“É delicada, atenta, aguçada. Daí a minha astúcia e o meu desejo natural de discutir (saudavelmente). Dos seus valores morais e sociais faço bandeira. A minha mãe é única.”
“Mais do que ator, sou apaixonado por teatro”
Vicente fala sobre teatro como quem fala de respiração:
“O teatro congrega pessoas, envolve-nos fisicamente, abstrai-nos do tempo. Faz do ser humano aquilo que devia ser: um corpo que encontra outro corpo.”
Para ele, a arte é sempre coletiva, nunca solitária:
“Comecei com comunidades do Porto. Aprendi que juntos somos maiores. O teatro não existe só com um corpo presente.”
As raízes ciganas: motor, não obstáculo
Vicente rejeita a narrativa da limitação:
“As minhas origens nunca me condicionaram. O que condiciona as pessoas ciganas é o sistema político e social.”
Na sua vida, ser cigano é força:
“É um motor de inspiração. Os valores da minha família ajudaram-me a ver o mundo de forma mais delicada e menos premeditada.”
Ativismo: liberdade, empatia e o senso do comum
Numa era em que a extrema-direita cresce, Vicente não suaviza:
“A minha liberdade acaba quando a do outro começa. Os ignorantes acham que liberdade é vale tudo. Não é. Às vezes, uma palavra basta para limitar a liberdade de alguém.”
Para ele, defender causas não é um extra — é um dever.
Gen Z com “alma velha”? Talvez — mas sem perder a esperança
Identifica-se com a sua geração, apesar do caos:
“O mundo está virado do avesso, numa velocidade e ignorância total. Mas existe bravura na minha geração.”
Destaca movimentos antirracistas, ambientais e queer como sopros de esperança. Mas irrita-se com a repetição de erros:
“É fácil termos cinquenta grunhos, altamente ignorantes, a discutir o nosso futuro — e a decidir por nós.”
Vicente Gil, um artista que não foge à palavra, ao corpo nem ao mundo
A entrevista deixa claro: Vicente Gil não é apenas um ator jovem em ascensão. É uma voz politizada, um corpo artístico que não existe separado da sua identidade cigana, da sua memória familiar, nem das suas urgências sociais.
Um artista para quem o palco serve — sempre — para acrescentar algo ao mundo.
Vicente Gil abriu o coração num entrevista mais profunda a Daniel Oliveira, veja no link ao lado – Vicente Gil quebra estereótipos: “Um cigano também pode ser ator, licenciado e bem vestido”







